domingo, 20 de junho de 2010

ARTIGO: A FAZENDA DO POVO

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Por Albione Souza

Pioneira experiência de Reforma Agrária em Ipiaú.

Euclides Neto com posseiros da Fazenda do Povo

No dia 8 deste mês, completou-se 47 anos da publicação do decreto lei 965 que desapropriou, para fins de reforma agrária, a Fazenda Santo Antônio localizada na região do Bom Sem Farinha, marcando assim a gestão de Euclides Neto como precursor da Reforma agrária na Bahia.
No período de 1962 a 1963, a região sul da Bahia passou por seca, gerando em Ipiaú e outras localidades demissões de trabalhadores. Neste contexto o prefeito de Ipiaú desapropriou uma área rural com cerca 157 hectares, a 11 km da sede do município, espólio do Sr. Ezidro Nunes Rezende, denominada Fazenda Santo Antônio, localizada na região do Bom Sem Farinha. Esta iniciativa, uma das primeiras desapropriações de terra com fins de reforma agrária realizada por um prefeito no estado da Bahia, quebra o monopólio da propriedade privada da terra, voltada para a monocultura do cacau para a exportação, convertendo-a em propriedade coletiva voltada para a subsistência das famílias dos posseiros e comercialização dos produtos agrícolas na feira livre em Ipiaú.

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Euclides Neto visitando famílias de posseiros da Fazenda do povo

A influência socialista de Euclides Neto, obtida durante seus estudos em Salvador e sua sensibilidade com as agruras vividas pelos trabalhadores das roças de cacau, influenciaram na decisão em socializar a propriedade privada (fazenda de cacau) passando a servir como meio de equilibrar as desigualdades sociais existentes na economia cacaueira. Desse anseio nasceu a área rural onde não existiam patrões nem empregados; a terra era utilizada por todos para a produção de alimentos para o consumo e comercialização na feira livre da cidade, diferentemente do modelo utilizado nas fazendas da região cacaueira voltado para a exportação. Os primeiros moradores batizaram o local com nome “Fazenda do Povo”. No livro “64: Um prefeito, a revolução e os jumentos”, Euclides explica a razão pela qual foi criada a Fazenda do Povo:
[a Fazenda do Povo] “Nasceu da vontade de fazer uma experiência socialista, sem ficar somente na proveta do laboratório de sociologia e política. [...] Com as secas e as fazendas despejando gente, quem mais sofria era o pai de família numerosa, o velho de braços flácidos, o homem de pereba na perna, a mulher abandonada que descaroça cacau e oferenda amor, mais chega ao ponto de não ter mais carne, porque a fome transformou-a em bagaço seco: sem forma nem gosto. Eram o que chamamos de sucata de gente.”


Foto 03

O prefeito e um lavrador na fazenda do povo.

A atitude de socializar terras, buscando privilegiar as classes sociais menos favorecidas, em detrimento da propriedade privada, conota o caráter socialista da gestão do prefeito Euclides Neto. Tal prática, realizada na primeira metade da década de 1960, época de guerra fria, gerou desconfiança de alguns cacauicultores abastados e grupos políticos conservadores, que passam a se sentirem “ameaçados” pelas ações do prefeito, consideradas de inspirações comunistas e subversivas. São estes grupos conservadores locais que, logo depois de instalado o governo militar, denunciaram Euclides Neto, acusando-o de comunista. Após criação da Fazenda do Povo, o prefeito já preparava o decreto para desapropriar uma fazenda vizinha, com aproximadamente 300 hectares, quando em Abril de 1964 foi surpreendido com a chegada duma junta militar instalou o Inquérito Policial Militar (IPM) investigando o prefeito de Ipiaú, sobretudo, por ter iniciado a reforma agrária no município, dando origem a Fazenda do Povo.

FOTO 04

Militares investigam Euclides Neto, acusado de ser comunista


Após o término de sua gestão, Euclides Neto não voltou a se candidatar a prefeito ou mesmo outro cargo eletivo. Entretanto, foi convidado para exercer o cargo de Secretário de Reforma do Estado da Bahia, ficando a frente da secretaria entre 1987-1989, durante o governo de Waldir Pires. Neste cargo permaneceu defendendo de forma intransigente a reforma agrária, contribuindo para a realização de desapropriações de terras, combatendo a famigerada estratificação fundiária existentes no estado da Bahia.

“O trabalhador rural sempre tem razão, mesmo quando, aparentemente não a tem: pelo passado de injustiças que seus antepassados sofreram e ele próprio”. Euclides Neto

 

 

Fonte: http://www.noticiasdeipiau.com/

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